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Apresentações técnicas discutem oportunidades para investimentos e impactos da Reforma da Previdência na economia 

Alexandre Sammogini

20/10/2021

As palestras técnicas realizadas na manhã desta quarta-feira, 20 de outubro, no segundo dia do 42º Congresso Brasileiro de Previdência Privada (CBPP), abordaram o cenário econômico e suas perspectivas para os próximos anos e os impactos da Reforma da Previdência na questão dos estados e municípios para a economia e o equilíbrio fiscal para o país. Walter Maciel Neto, CEO da AZ Quest, apresentou a palestra com o título de “Riscos e oportunidades: desdobramento da conjuntura econômica e perspectivas para a Bolsa em 2022”. Em seguida, Arnaldo Barbosa de Lima Jr, Diretor de Estratégias Públicas da MAG, realizou a apresentação intitulada “Impactos da Previdência Complementar”. 

Apesar da instabilidade gerada pelo risco fiscal do país e as incertezas no campo político, a Bolsa doméstica apresenta perspectivas favoráveis para 2022, segundo previsão de Walter Maciel. Caso se confirme a manutenção dos juros reais no patamar de um dígito por um período prolongado de tempo, deverá se confirmar um crescimento muito forte do mercado de capitais. “Destaco a importância de manter boa parte do portfólio alocada em ativos de risco”, disse o CEO da AZ Quest. O gestor apontou que as ações das grandes empresas estão se mantendo perto da relação mínima de preço/lucro.

Com o desenvolvimento da crise da pandemia, as grandes empresas perderam concorrentes. Se houver manutenção do regime fiscal com o respeito ao teto de gastos, haverá boas oportunidades de preços para ampliar a alocação de risco nos portfólios, apontou Walter. Para ele, os ativos de crédito privado, principalmente de empresas com rating mais alto, também oferecem excelentes oportunidades. “Os ativos de crédito de grandes empresas trazem spreads muito interessantes com risco baixo”, comentou. 

O gestor recomendou um nível de alocação média de 30% a 35% em Bolsa. “Os preços estão bastante atraentes”, disse em referência às ações das 20 ou 25 maiores empresas da Bolsa doméstica. “São as melhores empresas do país, com boa gestão e alto potencial de crescimento de lucros. É uma boa oportunidade comprar as grandes empresas brasileiras quando estão baratas”, recomendou Walter, citando exemplos como Magazine Luiza, PetroRio, XP, BTG Pactual. 

O CEO da AZ Quest ponderou que a incerteza que persiste é o risco de desequilíbrio fiscal. Tanto é que o mercado teve um comportamento bastante nervoso nesta terça-feira, 19 de outubro, com os ruídos provocados pelo anúncio do novo Bolsa Família. Apesar das incertezas, Walter apontou que o Brasil passou pela crise da pandemia com baixo nível de aumento da relação dívida/PIB em comparação com outros países mais desenvolvidos. Os EUA por exemplo ampliaram em mais de 23% a relação dívida/PIB. A Zona do Euro ampliou essa relação em mais 16%, enquanto o Brasil aumentou apenas 4%. 

Análise das crises – Walter Maciel analisou a evolução do mercado desde as duas Grandes Guerras mundiais até chegar à crise de 2008, que começou com o colapso dos clientes subprime nos EUA. Ele explicou que as medidas tomadas na crise de 2008 se tornaram referência para a atual crise da pandemia. O Banco Central americano (Federal Reserve) optou pela utilização de medidas que o Japão vinha utilizando desde a década de 80 para sair da depressão, com a injeção de recursos na economia e o resgate de algumas empresas que estavam quebrando. Inicialmente, as medidas do FED receberam diversas críticas, sobretudo que elas iriam gerar forte pressão inflacionária, o que acabou não se confirmando. E a economia dos EUA e dos principais mercados conseguiu superar a crise de 2008, ainda que muitos deles, principalmente da Europa, tenham observado crescimento lento de suas economias. Já a economia americana vivenciou um período de forte crescimento na última década. 

Quando chegou a pandemia, todos já sabiam o que fazer, ou seja, as medidas fiscais de 2008 foram retomadas e até reforçadas. O problema agora é que a pressão inflacionária está em alta, com o aumento das demandas e o surgimento de gargalos. Esses problemas são mais evidentes com a crise de energia e o aumento dos preços das commodities. “A oferta se desorganizou e está faltando energia. Por exemplo, estão faltando microchips. Há diversos gargalos de oferta com a volta da inflação no horizonte de curto prazo”, disse. 

Mas se as perspectivas para a economia dos EUA não são tão positivas, a projeção para o Brasil é mais otimista. O preço das commodities deve favorecer a economia brasileira. Os termos de troca estão bastante favoráveis para o Brasil, que deve retomar o crescimento, caso o risco fiscal e político seja controlado. O gestor prevê um crescimento do PIB de 1,5% em 2022, e de 2,5% para 2023. 

Reforma da Previdência – Na sequência de palestras técnicas, Arnaldo Lima, da MAG, analisou os impactos da Reforma da Previdência (Emenda Constitucional nº 103/2019) sobre o cenário fiscal e econômico do país. O especialista elencou três aspectos positivos para o desenvolvimento da economia provenientes dos impactos da reforma: o aumento da produtividade, o maior tempo de trabalho com o aumento da idade média de aposentadoria, e o crescimento da poupança.  

“A Reforma da Previdência está promovendo o aumento da produtividade, com maior rendimento e maior tempo de trabalho, o que deve gerar maior valor para o PIB. Outra consequência é a maior acumulação de poupança”, disse Arnaldo Lima. Ele mostrou estudos que quanto maior a população ocupada, maior é o acúmulo de poupança doméstica. Ele projetou um aumento de 0,3 ponto percentual no PIB por ano nos próximos 10 anos. Se a média de crescimento do PIB seria de 3% ao ano, ela será de 3,3% para a próxima década. 

Fundos dos servidores – Outro impacto positivo da Reforma sobre a economia é o aumento da poupança oriunda dos fundos dos servidores públicos. Após a criação das primeiras entidades fechadas dos servidores em 2013 – Funpresp-Exe, Funpresp-Jud e Prevcom – agora o surgimento de entidades dos entes públicos deve se multiplicar com as determinações a EC nº 103/2019. É que todos os estados e municípios que contarem com Regimes Próprios (RPPS) deverão instituir obrigatoriamente o Regime de Previdência Complementar até o próximo dia 13 de novembro. Apesar do atraso neste movimento, pois ainda é a minoria que atendeu ao mandamento constitucional, a ampliação deve ocorrer de maneira mais acelerada daqui em diante. 

Atualmente os fundos dos servidores contam com 174 mil participantes e R$ 8,3 bilhões de patrimônio. Segundo o Diretor da MAG, em 2050 o patrimônio dessas entidades deve saltar para R$ 271 bilhões. Com a manutenção de taxas de juros em patamares baixos, a tendência será a diversificação desses investimentos na economia real. “Teremos de pensar em novos produtos e investimentos. Devemos nos tornar um braço de inovação para o setor financeiro para complementar os investimentos públicos, por exemplo, em saneamento, concessões e precatórios”, disse Arnaldo Lima. Para ele, a Previdência Complementar poderá inclusive apoiar o desenvolvimento econômico regional, com o direcionamento de recursos para investimentos locais.

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